terça-feira, setembro 16, 2008
Voltando
Estou voltando à ativa. Este blog, que quase foi desativado, volta agora por forças maiores à sua velha forma. Talvez não à velha forma, com textos criativos e tiradas engraçadas, mas enfim, volta.
Impressionante o que a faculdade faz com as pessoas. Faz inclusive retornar à escrever.
É isso aí... a empolgação é muito pequena, diante de tão explêndido blog.
Obrigada e volte sempre!
sábado, abril 19, 2008
Tu vens
- Sugiro que leia esse texto ouvindo Anunciação de Alceu Valença.
Rosa esperou vinte anos. Quando jovem, acreditou na promessa de que um dia, por mais difícil que fosse, ele voltaria para buscá-la e a envolveria em seus braços, protegendo-a e a levaria para seu ninho de amor.
Rosa apresentava marcas do tempo em seu rosto moreno. Aos quarenta anos, a mulata Rosa tinha uma pele linda, mas cansada do sol. Sua silhueta era a mesma de vinte anos atrás. Rosa tinha anca larga e seios como que moldados, de tão perfeitos. Esses vinte anos não fizeram de Rosa uma mulher gasta. Mas sim, uma mulher pronta.
A mulata Rosa ia e vinha com baldes de roupa para lavar ao pé do riacho. Rosa era calada e isso sim, mudou com o tempo. Na sua juventude, Rosa era falante, cheia de sonhos e planos. Até que ele foi embora.
Com o tempo, Rosa foi se calando e apenas com a companhia do sol, não falava mais que o necessário.
A mulata mais linda das bandas de Piriofa, morava em uma choupana antiga que seus avós deixaram para a família, e que seus pais na época da guerra faziam guarda com medo de ações inimigas. Mal sabiam eles que nenhum alemão se atreveria a chegar em Piriofa.
O problema é que nas regiões de Piriofa, os inimigos nem sempre eram os alemães, mas sim os coronéis que ateavam fogo nos vilarejos dos sertanejos que deviam, ou que os contrariavam.
Foi numa dessas, que o pai de Rosa morreu. Adêmico, o dono do pedaço, não exitou em meter chumbo no Sr. João, que devia ao Coronel um burro, e algumas sacas de farinha.
O povo de Piriofa se calava poucas vezes, mas se não se ouvia um pio na região, com certeza era porque ou os Coronéis ou os cangaceiros estavam por perto.
A mãe da mulata Rosa, Dona Rosa Maria, faleceu de desgosto após perder seu amado João para Adêmico, que insistia em dizer que se a família não pagasse o tal do burro e das sacas, levaria a mulata Rosa para sua fazenda e faria dela o que bem entendesse.
Num dia de ventania, os cangaceiros liderados por José Navalha invadiram Piriofa e fizeram um estrago dos grandes na região. Além de saquear, violentar e tudo aquilo que era peculiar aos cangaceiros do bando de Navalha, deram um golpe ímpar.
Os bandoleiros de Navalha invadiram a fazenda de Adêmico e não sobrou nada. Mataram o coronel, suas filhas e deram um jeito de fazer com que o filho mais velho de Adêmico fosse parar na Guerra.
Por um lado, o povo de Piriofa ficara livre de Adêmico, mas por outro, estavam entregues aos caprichos de Navalha e seus homens. E foi assim que Zezinho Canivete conheceu a jovem mulata Rosa.
Num misto de ódio e amor, Rosa apaixonou-se por Canivete, que juntou-se a jovem moça. O povo de Piriofa, não aprovava em nada o amor dos dois, e alertavam Rosa para que deixasse o mal feitor. Mas ela, acreditava em Canivete, que havia deixado o bando de Navalha para juntar-se à moça.
O que ocorria, é que naquela época, não existia a possibilidade de ser um ex- cangaceiro. Para Navalha, o que Canivete fez, era imperdoável. Não havia, de forma alguma a possibilidade de largar o cangaço por um rabo de saia qualquer. E Canivete teria de pagar um preço alto.
Já que havia matado o mais poderoso coronel da região, Navalha tinha livre acesso à Piriofa e a cada dois meses voltava à região para se “reabastecer”. Foi em um retorno desses que Navalha resolveu acertar as contas com Canivete.
Enquanto Rosa lavava as roupas no riacho, Navalha fez uma investida na velha choupana e pegou Canivete pelo pescoço dizendo que se não fosse embora com ele, Rosa sofreria sérias conseqüências.
Canivete sabia do que o ex-chefe era capaz e pediu uma trégua. Disse que não era mais dessa vida e que havia se aquietado. Mas nada fez o velho cangaceiro mudar de idéia.
Navalha arrastou Canivete até em frente ao retrato de Rosa e berrou que se não fosse com ele naquele momento, Chiquinho iria fazê-la mulher de verdade e que mais três ou quatro do bando já estavam fazendo guarda perto ao riacho.
Desesperado, Canivete concordou em ir com Navalha e pediu para que esperasse Rosa voltar para despedir-se. Navalha não tinha cara de bom moço e é claro que disse não.
Canivete escreveu em um pequeno papel a frase: Minha preta, por mais difícil que seja eu vou voltar!
Quando Rosa chegou na choupana e não viu sinais de Canivete, entendeu o que se passara enquanto estava fora. E chorando muito, encontrou o pedaço de papel com os dizeres de seu amado.
Vinte anos se passaram, e a cada lua cheia, Rosa pedia aos céus para que Canivete tomasse o rumo de casa. Em uma manhã de domingo, enquanto a mulata estendia seus lençóis, calada como sempre, ouviu os sinos da Igreja soarem. Rosa colocou o balde em cima do morrinho de areia e a mesma ventania de anos atrás começou.
Em meio à ventania vinha um cavalo e montado nele, um homem cansado com roupas sujas e barba por fazer. Rosa sentiu seu corpo vibrar e os vinte anos de espera passaram como um filme diante de seus olhos. A mulata tirou de dentro do vestido um papel amassado com a mensagem de esperança de Canivete.
Ele veio vindo e desceu de seu cavalo, agarrando a mulata que chorava e ria misturando os sentimentos. Os dois se amaram e Piriofa sorria novamente com o sorriso da mulata.
quarta-feira, abril 02, 2008
Palavras, minhas palavras...
- Sugiro que leia esse texto ouvindo qualquer música a seu gosto. Hoje sumiram-me não somente as palavras, como também as indicações.
Meu texto morreu! Nada me inspira a escrever, talvez minha ansiedade esteja corroendo a parte do meu cérebro destinada às palavras. E justo hoje que eu queria tanto contar como foi meu dia.
A máquina que ficava na estante de ferro da sala, tal qual a própria estante, enferrujou e não há nada que se possa fazer para mudar isso. Até porque, nas limpezas quinzenais que minha mãe insiste em fazer aqui em casa, ela já encontrou um outro dono para as minhas ferrugens e passou minha querida máquina adiante.
Ainda hoje pela manhã, lembrava do primeiro texto que caprichosamente escrevi com ela. Era algo como a redação de volta às aulas, que a professora da segunda série pedira.
Com meus oito anos, ganhei a máquina e para imitar meu pai que era escriturário, escrevia nela longos textos de 3 linhas. Sim, eles eram de fato longos, afinal, com oito anos, tudo que ultrapassa a primeira frase pode ser considerado uma coleção literária numerosa.
E hoje, anos depois, me faltam palavras. Seria muito absurdo pensar em escrever sobre as férias da segunda série? Talvez se encontrasse o texto dos meus oito anos e me lembrasse como foram aquelas férias, tudo voltaria ao normal.
Mas, assim como as ferrugens, minha mãe deu um jeito também nas lembranças do primário. E isso, é algo que gostaria de entender. Por que será, que mães dão fim nas nossas coisas?
Já pensei em trocar a fechadura de casa é verdade, mas dessa forma, não encontraria a cada quinze dias os livros arrumados e as cuecas limpas. Mais que limpas, passadas, dobradas e como que por mágica, arrumadas uma a uma dentro da gaveta esquerda.
Mesmo com cuecas limpas e livros arrumados, o que facilita em 90% a vida masculina, eu não encontro palavras. A organização da minha mãe é tanta, que talvez no meio dessas arrumações ela possa ter guardado minhas idéias e esqueceu de me avisar aonde colocou.
Ou pior que isso, ela pode ter doado minhas idéias junto com as ferrugens, uma tremenda sacanagem, já que sou escritor. Pô mãe, daí já é demais, né?!
Outra coisa que facilita a vida do homem e que minha querida mãezinha me auxilia é a preparação do café. Aquele que me acompanha durante horas na incessante procura por idéias.
Falando nisso, amanhã é dia da visita da mamãe. É bom mesmo, porque a comida está acabando e pelo menos o bolinho ela traz e quem sabe no recheio do bolo de cenoura, não estão as idéias que sumiram daqui há mais ou menos 15 dias?
quinta-feira, novembro 29, 2007
Sim, nós temos.
- Sugiro que leia esse texto ouvindo a música "O último pôr do Sol" do Lenine. Porque amigos que são amigos, ouvem Lenine.
Eu tenho e provavelmente você também tem, caro leitor. Meus pais têm, meus irmãos têm, meu namorado têm, minha vizinha têm, meus chefes, bem até eles devem ter... Amigos, caro leitor, todos nós temos amigos. Aquele ser extremamente estranho que muitas vezes discorda de você durante horas na mesa do bar e ainda paga sua conta, porque você ta sem nada. Aquele um que te liga pra dizer: Pô cara! Vâmo fazer alguma!! Ou pra dar a pior notícia de todos os tempos. É incrível, elas sempre vêm pelos amigos.
E eu, caro leitor, eu tenho amigos. Em especial tenho uma amiga, que no início da amizade - e isso é muito comum – a odiava. Sabe como é né? Precisamos competir com alguém, a única que estava no meu nível de competição era ela. Enfim, hoje não sei viver sem a dita cuja.
Eis que desde os tempos em que competíamos até hoje, já se passaram muitos anos e muito mudou. Não só em nosso corpo, porque isso é inevitável, mas em nossas mentes e corações e isso, isso nada no mundo paga. Ela me contou certa vez, uma linda história de amor, daquelas que tem todos os personagens e ingredientes de romances, os mocinhos, o vilão, os motivos diversos por eles não ficarem juntos e o maravilhoso e mais puro amor dele por ela e dela por ele.
Como é próprio de nós, amigos dos amigos, os escutamos por horas e ainda podemos palpitar na história que é contada por eles, sem que se criem casos, apenas risadas ou reflexões demoradas que terminam em: É, você tem razão, eu não tinha pensado nisso. Nesse caso, amigo leitor – veja que já está na condição de meu amigo – eu resolvi palpitar na história dessa minha amiga por texto.
E cá estou eu, dedicando toda uma página com grandes rascunhos pela história alheia. Mas saiba amiga, e ela sabe que é para ela, faço isso porque a história é boa.Infelizmente você, amigo leitor, não poderá saber da história na íntegra, pois levariam tardes e tardes, noites e noites para que a mesma fosse concluída. É, os amigos além de tudo sempre falam bastante e essa espécie que trato em meu texto fala muito.
O que ocorre amigo leitor é que - como você tem amigos, deve saber - nos envolvemos muito com as histórias que nos são contadas por estes seres tão queridos. E de alguma maneira, tentamos fazer o melhor para eles e para nós mesmos. Aqui não é diferente, estou desabafando sobre a passagem romântica da minha amiga.
Como havia dito, a história que ela me contou foi sim um romance, mas não um conto de fadas e acredito que ela ainda não conseguiu entender muito bem essa diferença. E é para isso que estamos aqui, nós amigos. Para lembrar nossos queridos que nem tudo é fantasia e festa e que infelizmente, o mocinho não ganha sempre e que Romeu e Julieta não ficaram juntos de primeira. Um abraço a todos os meus amigos e aos seus também.
terça-feira, novembro 27, 2007
Na minha tela
- Desculpem a demora na renovação, mas minha fábrica de textos não trabalha em horário comercial.
- Sugiro que leia esse texto ouvindo "Summertime" por Miles Davis. Sim, trompetes a toda!
De frente ao computador o mundo me parece não ter vida. São horas e horas perdidas, vasculhando espaços estranhos, muitas vezes pessoas estranhas e a depressão junto à vontade do chocolate vem a galope.
Nesse meio de noite nem a tv não adianta mais. Vivas pro meu computador que me abre mundos e fundos às 3:58 da manhã. Excelente horário pro Miles Davis me fazer companhia. E não, não me venha falar de livros de madrugada que eu não consigo me concentrar para ler. Até tentei.. mas o Mundo de Sofia pesa muito.
Se eu fumasse, tenho certeza que o faria agora, nesse momento. Com essa luz da Lua entrando pela fresta aberta da janela e concorrendo com a tela do computador pra ver quem ilumina mais meu quarto, seria o momento perfeito pra acender o cigarro. Mas não, não fumo.
O jeito é ficar com o Miles Davis mesmo, desligar o computador e nessa madrugada que se faz tão minha, fechar os olhos e me banhar com essa Lua...
sábado, junho 30, 2007
Calafrios de curiosidade
- Homenagem ao meu querido amigo Tiago Pena, que por vezes deixa-me curiosíssima ao não contar por inteiro suas histórias. Amo você, querido! Obrigada.
- Sugiro que leia esse texto, ouvindo a música "Chill Out", de Carlos Santana.
Quando ele entrou em minha casa sorrateiro, percebi em seus olhos um ar de mistério, trazia consigo um embrulho num papel já amassado meio cor de rosa, daqueles que servem para envolver presuntos defumados.
Eu já estava sonolenta e sentia o ar sombrio com que ele movimentava-se em minha sala apertada. Largou o embrulho em cima da mesa, ligou a tv e colocou num volume baixo para que eu não acordasse. Ainda assim, sentia vontade de ir falar com ele, mas o cansaço me acometia e não conseguia levantar.
No dia seguinte, quando acordei, nem ele, nem o tal pacote estavam em casa e dei-me conta que estava ligeiramente atrasada.
Tomei um banho às pressas e não parava de maquinar que diabos era aquilo que ele trouxera na noite anterior. Pensamentos iam e vinham e também a idéia de que morreria na curiosidade mórbida que me tomava as pernas e subia até meu ventre, causando-me enormes calafrios por não distinguir o que era aquele maldito embrulho.
O dia foi passando e a imensa angústia pelo não saber era motivo de distrações e maus pensamentos.
Ao retornar a meu lar, segui até a cozinha e encontrei em cima da geladeira o tal pacote.
Estávamos nós ali, eu e o embrulho e podia, sem dar na vista, abri-lo e sanar minhas questões.
Pois bem, lá fui eu, tão sorrateira quanto ele na noite anterior, sentia-me cometendo um delito.
Abri o dito cujo! Pronto, acabou-se minha curiosidade.
quinta-feira, junho 07, 2007
Na dúvida, dono de bar..
- Sugiro que leia esse texto ouvindo a música "Down em mim", do Cazuza.
Ta tudo uma merda mesmo, se eu tomar todas hoje, pelo menos esqueço isso por alguns instantes.
O mais engraçado é que quando entramos na faculdade ninguém diz pra gente que vai ser assim né! E nós, jovens, acreditamos que será o momento de renovação do espírito, de brigas políticas, o mundo nos espera!! Passamos quatro anos acreditando em tudo isso pra nos formarmos, naquela festa linda onde todos nos dão parabéns pela vitória!
Porra! Só depois mesmo, formados e sem emprego que vemos a realidade!!
Vai Julio, enche aí, meu! To falando que hoje vou beber até cair.
Ai passa o tempo e você arruma aquele trampinho requenguela, ganhando uma miséria pra sustentar sua casa, sua vida, que quando você tinha 20 anos, por rebeldia resolveu sair de casa, só se esqueceu que a faculdade não é eterna e que seus pais não vão te sustentar pra sempre.
No trampo, dá sua alma, e descobre que realmente a secretária do chefe é a mais gostosa do setor, o problema é que ela é casada. Tudo bem, você não se importa, porque lembra da Ritinha, aquela gata da faculdade que te jurou amor eterno e com certeza, ta te esperando em casa.
Daí bate aquela puta incerteza, mas é mesmo a Ritinha? Lógico que é, você só se dá conta quando vê ela dormindo no sofá toda desajeitada, com a tv ligada.
Vai Julio, ta esperando o que? Pode trazer mais uma dose... dupla!
A partir do momento que você se vê com aquela merdinha de trampo, uma casa pra por comida e a Ritinha dormindo no sofá, pensa bem em que futuro vai ter ao lado dessa mulher que te jurou amor eterno naquele prédio azul da Universidade, às cinco pras duas de uma quarta-feira ensolarada.
É Julio, as coisas não são fáceis. Você gosta de ser dono de bar? Nunca pensou e ser jornalista, não? Pois é... eu nunca pensei em ser dono de bar, mas jornalista...
Sabe como é né Julio, família típica de classe média, aquela história de ter diploma, aquele papo de meu filho vai ser engenheiro e o seu? Ah o meu vai ser médico e o seu?
Porra, meu filho vai ser jornalista, um vagabundo nato! Nunca vi esse piá, passa o dia trancado, escrevendo, lendo, ouvindo música e tem aquele cheiro estranho no quarto dele que ele diz ser incenso, ta bom.. sei!
É Julio, quem dera eu ter sido dono de bar, meus pais não teriam gasto com minha faculdade.
Pô cara, não ta sobrando uma vaga aí, eu posso escrever o cardápio, dar uma repaginada no bar, coloco umas notinhas aí que ta de cara nova, isso aqui vai lotar, heim!
Ta vendo Julio? Nem assim, eu deixo de ter essa alma jornalística nojenta!
Vai Juião, só mais uma e eu prometo que vou embora!
Sabe Julião, agora vou pra casa... ver minha mulher, assistir o Jô e amanhã começa tudo de novo. Essa rotina de bosta que não me deixa sonhar! É isso, Julio... eu não posso sonhar, na minha profissão, tenho que dizer a realidade, nada de inventar, de sonhar! Tenho que ser factual! Que merda é essa? Factual? Cadê as viagens? Devaneios? Cadê tudo isso?
Porra Julio.. marca aí pra mim! Falou!