sexta-feira, outubro 13, 2006

Sobre Marcio e remédios!

  • 4º Episódio sobre Lucia. Leia os outros, para melhor aproveitamento! Divirta-se!

  • Sugiro que leia esse texto, ouvindo a música Ironic de Alanis Morisette

Aqui vejo coisas diferentes... todos são pálidos e as cores pastéis me enjoam.
Faz tempo que eu não converso com alguém que não esteja chapado de remédio ou que não seja funcionário, se bem que desconfio do Marcio, ele tem cara de maconheiro! E é o único que não é pálido...
Pois é, o Marcio! Ele é lindo, forte, moreno, tem uma nuca linda! Sempre gostei de nucas não sei bem por que.
Quando ele vem fazer vistoria, sempre dou um jeito de conversar com ele.
Dia desses, ele disse que tinha ido a um show e que adorou e falou mais alguma coisa que não me lembro, porque estava perdida em sua beleza.
Há onze meses conheço o Marcio, já me imaginei sua namorada, noiva, esposa e sempre voltei à realidade quando ele entrava no quarto e dizia que era a hora do remédio.
Deus me livre tê-lo me remediando para sempre! Quero Marcio para outras funções!
Voltando ao início disso tudo, o quarto, o corredor, as coisas e as pessoas são brancas, pálidas e eu não quero mais ficar aqui.
O Marcio que me perdoe!

segunda-feira, outubro 09, 2006

Dona Laura.

  • Se você está chegando aqui pela primeira vez, gostaria que soubesse que estou contando uma história em alguns textos e esse que segue, é mais um trecho. Para acompanhar desde o início, você pode ler os textos "Lucia linda" e "Aos olhos de Lucia". Divirta-se!

  • Sugiro que leia esse texto, ouvindo a música "Behind blue eyes" do The Who.


- Desculpe, mas ela demonstra grande apatia ao tratamento!
- Mas isso é impossível, já faz onze meses e não há nenhum progresso, doutor?
- Então, no início ela ficou muito agitada, mostrava impaciência e dizia coisas desconexas. Com o tempo parou com esses distúrbios, pois aumentamos a medicação, mas agora mostra-se indiferente a qualquer tipo de interferência médica. Cremos que ela criou um Universo Paralelo.
- Mas isso é um absurdo! Minha filha é louca e vocês não fazem nada! Gasto uma fortuna nessa clínica para o senhor vir me dizer que ela demonstra apatia ao tratamento?! Ora, faça-me o favor!!!
- Minha Senhora, ela não é louca, apenas apresenta distúrbios de personalidade e...
- E nada, a Lucia é louca sim e vocês estão se recusando a medicá-la.
- Não, a senhora está completamente equivocada, se é isso que a senhora pensa, deve tirá-la dessa clínica, pois aqui não é hospício! Porém, tenho absoluta certeza que louca, sua filha não é!
- Pois bem, cuidarei disso ainda essa semana!
- Passe bem Dona Laura!

domingo, outubro 01, 2006

Aos olhos de Lucia

  • Antes que comece a ler "Aos olhos de Lucia" , peço para que leia o texto "Lucia linda", creio que será melhor compreendido!

  • Sugiro que leia esse texto, ouvindo a música "Conquer it all", do Bambix.

Eu não sei bem porque, mas aqui no bairro sempre acharam que eu era meio pancada da cabeça, eu ouvia comentários: -“Lá vai a linda tadinha, tão louca”
Nunca me esforcei para provar o contrario é verdade, e meu jeito explosivo sempre acentuou esses adjetivos.
Enfim, dia desses eu estava realmente muito nervosa e ainda assim, peguei o biarticulado.
Quando entrei no ônibus, avistei um vizinho meu, notei que ele me observava, mas como estava muito chateada, virei de costas pra ele, de frente para a porta e lá fiquei com minha raiva e angústia.
Não podia gritar, então, sussurrava e batia na porta para aliviar-me.
Lá pelas tantas, pensei em desabafar com o tal vizinho já que ele se mostrava assim tão interessado em mim.
Mas de repente, quando criei coragem, vi que ele descera do ônibus. Então me bateu um desespero e fiquei ainda mais nervosa, percebi que ele me acompanhou com os olhos de dentro do tubo enquanto o ônibus partia.
Foi a última vez que o vi.

domingo, setembro 17, 2006

Uma pequena confissão, admito!



  • Sugiro que leia esse texto, ouvindo a música "Símbolo da Paz" do Ventania.
Até que ponto podemos dizer que fomos felizes, que vivemos bons momentos, que foi um tempo incrível?
Os céticos, por exemplo, nunca admitiriam seu momento de pura felicidade, pois não acreditariam que ele existiu.
Já eu, que não sou cética e estou longe de ser descrente, fazendo o balanço geral de tudo o que houve, posso dizer que sim, fui feliz ali. Não foi provocado, instigado, foi a magia, foi o momento, as pessoas, o lugar, o que foi dito, o que se pensou, o que se acreditou.
Sabe aquilo que se diz: “ah só quem viveu é quem sabe!!” é mais ou menos por aí.
Foi exatamente isso que coloquei na balança e pesou para o lado da felicidade, do bom momento, do inesquecível, por mais que digam que sempre esqueço tudo.
Se você um dia tiver a oportunidade de ser feliz, ou de ao menos ter momentos de felicidade, não diga não, entregue-se! Aproveite, pois provavelmente igual, nunca será!

sexta-feira, setembro 01, 2006

Lucia linda!

  • Sugiro que leia esse texto, ouvindo a música "Container" do Mombojó.

A Lucia era linda, acho que a mais bonita do bairro, meio pancada da cabeça, é verdade, mas a beleza escondia ou pelo menos disfarçava aquela maluquice toda. Uma vez peguei o biarticulado e uns pontos adiante ela entrou e parou bem em minha frente. Virou-se de costas para mim e bem pertinho da porta, batia os punhos fechados no vidro e sussurrava palavras quase inaudíveis.
Talvez um metro e sessenta, olhos negros, a pele era bem lisa e clara, tinha os cabelos repicados pintados de vermelho e trazia no canto da boca carnuda um piercing de argola. Vestia o mesmo jeans de sempre, com aquele cinto de rebites já meio surrado, encasacada, pois realmente fazia um frio enorme esse dia.
Aquela tarde em especial, estava mais agitada que o normal, suas mãos pareciam dizer que algo estava por vir.
Lucia balançava a cabeça enquanto balbuciava aquelas palavras, a mão não parava de bater no vidro. Não era uma batida forte, mas era incisiva, ali continha muito ódio, uma raiva quase que insuperável de algo que não podia distinguir o que era.
Mais adiante tive que descer, e da estação tubo enquanto o ônibus partia, via Lucia ainda mais agitada e nervosa, parecia que começava a chorar.
Lá se foi Lucia, a última vez que a vi...

sábado, agosto 05, 2006

A música que eu gosto da banda que eu não gosto!

  • Sugiro que leia esse texto, ouvindo a música "Vou pra aí" do Jota Quest.
Quando eu cheguei, logo notei que tinha algo errado com a luz, mas com esses meus últimos esquecimentos, talvez pudesse ter deixado a do banheiro ligada sem notar...

Fui fazendo tudo aquilo que sempre fazia ao chegar em casa: tirei os sapatos, chaves no cinzeiro, cabelo preso, bolsa em cima do sofá, oi pro Chano e notei a luz acesa!

"Engraçado!" Pensei eu pegando o Chano no colo e lhe acariciando a nuca, sentindo o relaxar de seu corpinho em meus braços... "Não me lembro de ter deixado essa luz acesa!"

Por um momento, ainda pensei que tivessem entrado em minha casa, mas logo notei que tudo estava ali, tv, som, computador... enfim, tudo estava lá.

"Devo ter deixado acesa sem perceber, essa minha cabeça, anda nas nuvens." Apaguei a dita cuja.

O Chano deu aquela “miadinha” e logo me lembrei que tinha de colocar comida pra ele.

Liguei o som, e na rádio tocava uma música antiga, que há tempos não ouvia e se me lembro bem, memória não é meu forte, mas vá lá, nunca gostei muito da banda, mas dessa música eu gostava.

Aumentei o som, tanto que o Chano deu um pulinho pro lado enquanto comia sua misturinha.

Percebi que a música me fazia lembrar dele. E foi me dando uma saudade! As vezes me lembro dele aqui nessa casa, brincando com o Chano, arrumando a mesa pra gente comer algo, ligando o som e curtindo uma musiquinha num volume quase mínimo... Ai, que saudade!!

O telefone tocou:
- “Graças a Deus você ligou, me deu um negócio agora e comecei a lembrar dele!........ Aham, eu to tentando pensar em outras coisas, mas você sabe que é difícil........... Sair hoje? Ah não sei não, acho que hoje eu to meio fossa sabe? Quero ficar em casa mesmo............... Será? Puxa, mas eu to meio borocoxô mesmo, acho que não vou....... Ta, me liga mais tarde então, beijo.

Peguei a tigelinha do Chano, lavei e a música tinha acabado, resolvi tomar um banho e colocar um cd, assim quem sabe não me voltassem mais essas bobagens de saudades!

Funcionou, nos primeiros 30 segundos, logo depois, voltei a pensar nele, em mim, em nós... Saudade mesmo!

A água escorria e ia fazendo desenhos em meu corpo, me lembro de que cada gota era uma lembrança diferente...

“Eu queria tanto que tudo fosse como antes” olhava pro Chano que me olhava tomando banho....

A campainha tocou e me enrolei na toalha meio correndo, molhei todo o corredor. O Chano miava ao lado da porta e pelo olho mágico meio embasado consegui ver aquilo que não acreditava que fosse verdade.

Abri a porta e era ele, com uma garrafa de vinho, uma rosa e um jantar improvisado às pressas de alguma casa de massas.

Oi, eu estava no carro agora há pouco e ouvi aquela música, daquela banda que você nunca gostou, mas daquela música você gosta e pensei que talvez você estivesse em casa e quisesse jantar comigo e....fiquei com saudades e.... poxa! Você vai me deixar na porta?

Não, desculpa, entra, pode entrar....

segunda-feira, julho 24, 2006

Não como era antigamente!

  • Sugiro que leia esse texto, ouvindo "Um branco, um xis, um zero" de Arnaldo Antunes.

Dia desses resolvi voltar aos velhos tempos. Revisitar amigos, pessoas, lugares, músicas, fotos, filmes, cheiros, sabores e nessas... voltei a beber.
Não que já não bebesse mais, é que como estava dando uma volta no passado, resolvi relembrar como era beber como antes. ("antes", no sentido de muito, bastante, grande quantidade.)
Esqueci como eu fazia isso com perfeição antigamente, hoje não tenho mais tanta desenvoltura...
O dia seguinte é sempre um problema, problema, aliás, que eu não tinha antigamente.
Uma confusão mental, física, psicológica, terapêutica... É, não sou mais a mesma!
Daí surge um breve arrependimento... mas porque Diabos fui eu inventar de beber? É nem tudo tem explicação...

(Já passei um pano, um branco, um zero, um xis, um traço, um tempo, já passei.)